A remota ilha onde hackers se preparam para nos defender de uma guerra invisível

Organizado anualmente, o Jammertest é um festival de hacking ao ar livre realizado que busca usar sinais de satélite para alterar o próprio tempo e verificar se receptores de dispositivos tão diversos quanto relógios e drones conseguem resistir à pressão.

Fonte: G1 — 2026-09-21

O ponto de encontro dos hackers é Andøya, na Noruega. Getty Images via BBC Harald Hauglin é um homem de estatura imponente, barba grisalha, óculos de armação fina e um sorriso travesso. Quando o conheci, em setembro de 2024, ele carregava no bolso de seu colete de alta visibilidade, de uso obrigatório, um patch com a imagem de um coelho branco correndo com um relógio, como o de "Alice no País das Maravilhas". Hauglin é o engenheiro-chefe de metrologia de tempo e frequência do Serviço de Metrologia da Noruega, ou seja, a entidade governamental responsável por garantir a precisão das medições no país. Mas Hauglin também é conhecido como o "nerd da aurora boreal", um apelido que surgiu há dois anos, no evento Jammertest. Organizado anualmente pelas autoridades norueguesas, o Jammertest é um festival de hacking ao ar livre realizado em uma ilha remota, 300 km ao norte do Círculo Polar Ártico. Seu objetivo é simples, mas impressionante: usar sinais de satélite para alterar o próprio tempo e verificar se receptores de dispositivos tão diversos quanto relógios e drones conseguem resistir à pressão. No centro desse experimento está uma tecnologia que sustenta grande parte do nosso mundo digital moderno: o sistema global de navegação por satélite (ou GNSS, na sigla em inglês). Atualmente, todo tipo de sistema depende da tecnologia GPS. Getty Images via BBC Marcando o tempo Tendemos a pensar nas redes de satélites, como o GPS, principalmente como ferramentas de navegação. No entanto, elas desempenham outra função igualmente importante: transmitem sinais de tempo de altíssima precisão. As redes elétricas, as infraestruturas de telecomunicações, os mercados de ações, os serviços de transporte e muitos outros setores dependem da sincronização fornecida pelo GNSS. Mas essa dependência das infraestruturas em relação ao GNSS também cria um "calcanhar de Aquiles". Os sinais dos satélites são fracos e podem ser anulados ou sequestrados por outros sinais mais potentes e de natureza maliciosa. Desde que a Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia, esse tipo de interferência aumentou drasticamente. Os efeitos mais evidentes foram observados na aviação. Em maio deste ano, um avião da Real Força Aérea do Reino Unido sofreu interferência no sinal de GPS perto da fronteira russa. Em setembro de 2025, a Agência de Transportes da Suécia afirmou que esse tipo de interferência havia se tornado algo cotidiano. O governo da Noruega é agora um dos muitos que se preparam para um cenário em que o GNSS poderia se transformar em uma vulnerabilidade estratégica. É possível, então, preparar-se para um ataque dirigido contra nossa própria percepção do tempo e do espaço? Todos os anos, dezenas de engenheiros, físicos e funcionários públicos viajam para o Círculo Polar Ártico para descobrir. O Jammertest é um evento semelhante às hackathons realizadas com frequência em diferentes ambientes Getty Images via BBC Jammertest, o maior teste O cenário do Jammertest é o vilarejo de Bleik, em Andøya, uma ilha minúscula e remota que costuma ser usada para estudar a aurora boreal. Esse lugar pitoresco lembra um acampamento de verão de engenharia. A impressionante paisagem ártica e o bufê diário de waffles contribuem para seu charme. No entanto, seu propósito é extremamente sério. Quando visitei o Jammertest, o evento estava apenas em seu terceiro ano oficial, embora a ideia de testar receptores GNSS comerciais para observar sua reação a interferências intensas — ainda que artificiais — não seja nova. Durante anos, o Exército dos EUA realizou testes no Campo de Mísseis de White Sands (Novo México) para analisar como os receptores respondem quando o GNSS é manipulado. Mas esses testes são estritamente controlados, inclusive no que diz respeito aos dados que podem ser divulgados depois que acontecem. A Noruega adota uma abordagem diferente: baseia o evento nas competições de hacking ético tão populares no setor de tecnologia, nas quais especialistas procuram…

[Matéria original de G1 — clique em "Fonte" abaixo para ler na íntegra.]

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